Psicanálise e Palhaçaria: uma interlocução possível

Sou palhaça voluntária em hospitais há mais de dez anos e venho estudando esta linguagem desde então. Percebo cada vez mais a interlocução entre a psicanálise e a arte da palhaçaria, o que me levou a fazer uma investigação sobre os pontos de aproximação destes dois universos aparentemente distantes.

Minha experiência me levou a concluir que o palhaço, ou clown, não é um personagem. O palhaço é a própria pessoa, com suas virtudes e fracassos, erros e acertos, luz e sombra. É uma caricatura de si mesmo, um ser errante que se diverte com o seu próprio ridículo. Subverte a lógica, a beleza, a moralidade. O palhaço se relaciona no tempo presente, como se não existisse passado, nem futuro.

O palhaço está aberto para encontrar em si mesmo o que há de risível, grotesco, ingênuo e malvado ao mesmo tempo. Nele há lugar para a ambiguidade, porque o palhaço se relaciona com o público num limiar muito tênue entre o trágico e o cômico. Sobrevive ao fracasso, aceitando a própria fragilidade e rindo de si mesmo.

O estudo da palhaçaria permite um mergulho na própria subjetividade em busca de aspectos obscuros, ridículos, infantis. E, por que não dizer, uma pesquisa do que se encontra recalcado, escondido pelas exigências de pertencimento e adequação sociais.

Através de jogos lúdicos e do uso da máscara representada pelo nariz vermelho, que funciona como uma autorização para transgredir as regras do socialmente aceito, o palhaço pode expressar o que de infantil, sombrio e ridículo lhe constitui. O palhaço está autorizado a errar, a claudicar e rir de si mesmo. O riso do outro não lhe chega como humilhação ou recusa de pertencimento, mas como identificação da parte infantil, sombria e ridícula que também povoa o público na sua condição humana.

Com o que me foi possível entender da psicanálise até este ponto do meu percurso, percebo uma interlocução com a palhaçaria dentro dessa busca da subjetividade, de ser quem se é, de diminuir as defesas construídas pela censura para garantir a adequação social, a fim de dar lugar à dimensão errante e tragicômica do ser humano.

A aceitação do erro e do fracasso pelo palhaço, que ri de si mesmo, me sugere uma semelhança com a aceitação da castração e a possibilidade de adiamento da satisfação do desejo. Explico melhor. O palhaço parte da condição humana de sujeito castrado, limitado, errante por natureza, aceita e deixa vir à tona essa condição, para posteriormente, suportada a dor do fracasso, dar-lhe outro destino que não o sofrimento, mas sim o riso, o jogo, a ludicidade.

Assim, nesse primeiro ponto de contato, o estudo da palhaçaria se aproxima do percurso do analisante. O palhaço reconhece seu lado ridículo, infantil, sombrio. O analisante sente surgir o recalcado, aquilo que lhe causa nojo, vergonha, repulsa e dor. O palhaço é chamado a aceitar sua condição errante e se permitir rir dos seus próprios erros e fracassos através do jogo cômico. O analisante tem a possibilidade de se reconhecer castrado e buscar novas formas de lidar com a ferida narcísica através da ressignificação de experiências. O palhaço mostra seus aspectos amáveis e odiosos, generosos e egoístas, inocentes e manipuladores, grotescos e poéticos, corajosos e medrosos, loucos e lúcidos, de luz e sombra. O analisante se aproxima da integração dos seus lados ambíguos e dos afetos despertados por esta ambiguidade.

Em ‘Além do Princípio do Prazer’, Freud encerra o texto com a citação de um dos “macamas” [sermões] de Abu Hariri, escritor árabe, na versão de Rückert:

“O que não podemos alcançar voando,
devemos alcançar claudicando. (…)
Segundo as escrituras, não é pecado claudicar.” 

É possível concluir que a saúde mental está intimamente ligada à capacidade de suportar o adiamento da satisfação do desejo dentro das limitações impostas pelo princípio da realidade, bem como de aceitar a condição humana de ser que claudica e, ainda assim, seguir em busca da satisfação possível.

O trabalho da análise, no campo da neurose, consiste justamente em viabilizar que o sujeito se aceite limitado pela realidade, porém, sem permanecer paralisado diante daquilo que falta. A relação analítica dá suporte para que o sujeito caminhe em direção a uma medida de satisfação mediante a descoberta de modos de suportar o adiamento da satisfação de seu desejo, ou de buscar outros destinos possíveis ao desejo e, assim, obter prazer.

A linguagem da palhaçaria tem a contribuir com a saúde mental ao revelar ao sujeito a possibilidade de rir de si mesmo e encontrar satisfação ainda que se reconheça errante, falho e ridículo em muitos aspectos.

A dimensão do humor, mais especificamente da arte da palhaçaria, se apresenta como zona de aproximação com a psicanálise, por estarem ambas a serviço da saúde mental, proporcionando o fortalecimento e a integração do Eu, a transformação do sofrimento em outros afetos possíveis, inclusive o riso, a redução das barreiras excessivas construídas pela censura e a aceitação da falta como fator constituinte da condição humana no mundo.

A construção do palhaço exige a travessia de um longo, e muitas vezes sofrido, caminho de investigação da própria subjetividade, com a coragem de revelar ao público, dentro da lógica do jogo e da brincadeira, seus lados mais estranhos e obscuros, a fim de que aflorem risos e lágrimas. O percurso do palhaço é marcado pela identificação das defesas que ele usa para esconder socialmente seu lado ridículo, com o objetivo de atuar para além do reprimido, com a possibilidade de rir de si mesmo.

No processo de análise, o analisante também percorre o caminho em que olha para sua subjetividade e, com o suporte da transferência na relação com o analista, procura superar barreiras e elaborar resistências, com o escopo de lidar com o mal estar que o levou ao consultório.

Dentro da investigação sobre a aproximação entre a psicanálise e a palhaçaria a que me propus a efetuar neste texto, tracei um paralelo entre a figura do palhaço e do analisante. Essa não é a única interlocução possível. Existem outros tantos pontos de contato, abrangendo, por exemplo, as técnicas de escuta, a exigência de flexibilidade e permeabilidade, a dualidade tragicômica, o jogo como instrumento de atendimento não só de crianças, mas também de adultos, dentre outros.

Desta forma, a eclosão de uma grande quantidade de pontos a serem esmiuçados na correlação entre a arte da palhaçaria e a psicanálise destaca a existência não de uma, mas sim, de várias interlocuções possíveis.